História da semana: Cami, a Tenente

 Assim que Aurora terminou de contar a sua história fez-se um silêncio. Ninguém mais queria contar a sua história, aparentemente ainda não estavam confortáveis para isso. Então, a Tenente se levantou no intuito de encorajar as meninas e disse:
-Já que ninguém quer continuar, eu irei contar a minha…Bom,
vocês dever saber que eu sou a mais velha aqui, então, minha história aconteceu
há muito tempo… 
Cresci em uma espécie de vila
cercada por uma floresta, na época existiam poucos terrenos na terra, meu pai e
mais umas cinco pessoas dividiram um pedaço de terra que o dono cedeu,
diferente do que parece quando conto para vocês, lá era enorme e cada casinha
ficava bem distante uma da outra. A nossa era um chalé de madeira muito bonito,
no quintal havia um jardim de roseiras rodeando a casa, há poucos metros corria
um rio e a nossa era a casa mais próxima dos limites da terra, se frente pra
casa tínhamos um plantio que era o nosso sustento, lá podíamos plantar tudo
para sobreviver. Há alguns quilômetros da nossa casa tinha uma praça onde as
poucas famílias se reunião às vezes mas meu pai detestava ir. Sempre fomos só
nós dois, meu pai nunca casou e minha avó morreu pouco tempo depois que nasci,
meu pai disse que estava muito doente, porém, quando criança sempre ouvi
comentários maldosos quando precisava ir até a praça, sempre coisas do tipo
“a avó morreu de desgosto quando ela apareceu em casa” uma vez me escondi
para ouvir a conversa quando falaram isso. “Dona Joana era louca pro filho
casar, ser pai de família. Numa dessas viajens até a cidade se arrumou com uma
moça da vida e teve a menina, a mulher largou na porta deles assim que a
criança nasceu, isso adoece qualquer mãe”. Quando cheguei em casa
perguntei para o meu pai, ele me mandou buscar água e nunca mais falar sobre
isso.
Meu pai era um cara muito
distante, nunca me disse nada sobre minha mãe e nunca me tratou como filha
mesmo, ele agia como se eu não existisse na maior parte do tempo, não que fosse
fácil já que eu sou a pessoa mais insuportável que vão conhecer. Ele me olhava
e parecia que sentia dor, isso sempre me magoou muito, meu pai era a única
pessoa que eu tinha e ele me detestava, fazia de tudo para se livrar de mim.
Aos dez anos me ensinou a forjar armas, o que foi minha maior diversão, passava
dias inteiros fazendo isso, principalmente quando meu pai ia caçar. Como nossa
alimentação provinha basicamente do que podíamos plantar, de tempos em tempos
ele saía para caçar e passava dias fora. Como ninguém da aldeia queria ficar
comigo eu sempre fiquei sozinha em casa.
Eu sempre fui meio… Hum…
Esquisita? Como eu não fazia amizade com as crianças que moravam lá eu ficava o
tempo todo no mato correndo pra cima e pra baixo. Como moravamos no meio do
nada eu nunca tinha sido atacada por monstros ou coisas do gênero, mas eu podia
ver através da névoa. Uma das vezes que estava correndo perto do rio achei que
uma árvore tinha sorrido para mim, sentei perto dela e comecei a falar com ela
até que da árvore apareceu uma coisinha pequena e verde, tão bonita. Antes que
eu percebesse uma das crianças que moravam ao lado viu que eu falava sozinha e
saiu correndo para contar para todos que eu era louca. A vizinha foi bater na
nossa porta de noite e pediu pro meu pai me ensinar a não falar sozinha. Meu
pai entrou em choque, passou meia hora sentado olhando para mim e sequer me
perguntou com quem falava, disse que eu precisava fingir ser normal se não nos
achariam, eu não sabia o que queria dizer mas comecei a ter medo de ir lá
durante o dia.
Com o passar do tempo meu pai
começou a passar mais tempo fora, às vezes passava semanas caçando e insistia
que eu não poderia ir junto por conta dos perigos. Apesar de saber forjar eu
não manuseava armas até então, comecei a treinar sozinha todas as vezes que meu
pai estava fora, era bom para mim já que não sentia a menor vontade de ir ver
as outras pessoas na vila, só ia na floresta durante a noite então me sobrava
muito tempo livre durante o dia. Comecei a treinar com facas, adagas e espadas,
no fundo eu só queria algo que me aproximasse do meu pai, mas de nada adiantou.
Um dia ele chegou durante o dia e eu estava na oficina, ele gritou por horas
falando sobre como minha atitude era irresponsável e que eu deveria ser como as
outras meninas. No dia seguinte ele voltou a viajar, trancou a oficina e me
disse que aprendesse a costurar enquanto ele estivesse fora.
Na sala tinha uma máquina de
costura muito antiga, pertenceu a minha avó e permaneceu intocada por anos,
comecei a procurar em todos os cantos da casa onde diabos ia ter linha e tecido
para costurar? Como ele me mandava aprender sozinha uma coisa e sequer dava
alguma pista sobre onde estavam as linhas e tecidos? Já estava quase desistindo
e resolvi entrar em seu quarto para procurar, ele D-E-T-E-S-T-A-V-A que eu
entrasse lá mas eu tava tão brava que entrei mesmo assim. No pé da cama tinha
um baú fechado, quando abri era cheio de bagunças aleatórias, acho que
acumulava coisas desde o tempo dos meus bisavós mas tudo bem. Lá eu achei uns
tecidos e linhas, em baixo disso tinha uma caixa cheia de desenhos delicados,
fiquei curiosa e comecei a mexer em tudo, lá tinham papéis, cartas, diários,
anotações. Tinha tudo que eu sempre quis saber sobre minha mãe, sobre quem ela
realmente tinha sido e qual seria o motivo para largar sua filha com o pai e
sumir para sempre. As cartas eram todas dele, era lindo de se ver, ele a amava
profundamente, era como se ela fosse a razão do seu viver. Um dos diários
contava toda a história, desde o começo. Ele estava caçando ao norte quando a
conheceu, lá tem uma pequena cidade, com uma feira e algumas cabanas.
Ele estava caçando quando a
encontrou, nevava muito e ela estava perdida caminhando pela floresta, ele se
ofereceu para ajudá-la, lhe entregou seu casaco e a direcionou para a cidade,
dividiram uma cabana, acenderam uma fogueira e se apaixonaram como se não
houvesse amanhã. O problema é que o amanhã chegou, quando acordou a bela moça
havia desaparecido de seus braços, não havia mais vestido vermelho, olhos
negros e nem seu calor. Ela se foi e ele sequer sabia o nome daquela moça. Meu
pai ficou semanas procurando por ela, nas florestas, em cada cabana que existia
ali, em qualquer lugar que ela pudesse estar, imaginou mil coisas antes de
concluir que ela havia partido de verdade e para sempre. Voltou para casa
completamente desiludido e de coração partido, quando chegou havia nevado onde
morávamos também, sua mãe já havia caído adoentada sem que ninguém soubesse. Na
noite seguida ao seu retorno ouviu barulhos estranhos cercando a casa, em
tempos frios é comum ataques de animais na aldeia, então ele saiu para ver o
que era. Quando abriu a porta viu um bebê dormindo calmamente embrulhado em
cobertas felpudas. Junto a mim tinha uma carta que dizia:

“Nada me deves, mas eu te
devo. De todo amor que me tens, nem metade posso lhe oferecer. Irônico que eu,
senhora do amor, não possa lhe dedicar o mais belo dos sentimentos. Minha
estadia neste mundo é efêmera, logo estarei voltando. Tenho obrigações de
benefício mútuo que me impedem de ficar. Se não posso lhe dar o meu amor, lhe
presenteio com outro tão belo quanto e eterno. Nunca te esqueças de mim,
estarei sempre olhando pelo vosso bem. Não voltarei e pelo teu bem, entenda,
nosso amor foi quente e acolhedor, mas acabou.
Afrodite”

Dentro do envelope encontrei um
pingente de borboleta, de ouro com asas peroladas. Meu pingente não é nenhuma
arma ou algo do gênero -não que eu saiba até o momento- mas hoje em dia é muito
importante para mim. Eu não entendi no primeiro momento o que aquilo queria
dizer, as cartas, sabe? Fiquei confusa e escondida em casa até meu pai voltar.

Eu não entendi no primeiro
momento o que aquilo queria dizer, as cartas, sabe? Fiquei confusa e escondida
em casa até meu pai voltar. Quando enfim ele voltou não quis saber do assunto,
me disse para jamais mexer novamente em suas coisas, disse que não era da minha
conta o que tinha lá. Eis que eu tive a pior ideia da minha vida: fugir.
Não parecia tão ruim peregrinar
por aí, eu já tinha aprendido a manusear armas, podia caçar e nunca me importei
em estar sozinha. Durante a noite juntei todas as coisas que pudesse precisar e
a carta que já havia guardado no meu quarto, consegui entrar na oficina e pegar
umas adagas. Eu não fazia ideia de para onde iria ou o que iria fazer mas eu
não queria mais ficar ali, poderia ir atrás da minha mãe na verdade era isso
que eu queria. Saí e minha primeira ideia foi ir ao norte, onde havia a cidade
onde se conheceram, comecei a andar por uma trilha que tinha na mata. Andei por
muito tempo até perceber que tinha me perdido, vocês sabem que meu senso de
direção não é nada bom, imagine de noite e no meio dos matos, gente!
A floresta era fechada, não tinha
mais trilha, estava muito escuro e resolvi que era melhor sentar perto de
alguma árvore para descansar até estar mais claro. Eu comecei a cochilar um
pouco quando o barulho começou, era um TOC TOC TOC estranho que eu não sabia de
onde vinha. Comecei a ver uma luz vindo do sul e quando foi se aproximando as
ouvi falar:
-Está aqui, tenho certeza, esse
cheiro ridículo, reconheceria em qualquer lugar.
Olha, eu entro em pânico muito
rápido, meu coração foi a mil na hora, como assim “cheiro”? Do que
essa mulher tava falando?
Estava mais perto, fui levantando
devagar e saindo de fininho, peguei uma adaga e planejei ir para o lado oposto,
não queria estar perto mesmo se não fosse eu que estavam procurando. Mal andei
uns metros e fiz o favor de pisar em um galho que fez o maior barulho do
universo, em segundos duas mulheres estavam atrás de mim. O meu maior susto nem
foi o cabelo de fogo, nem os dentes muito feios, eu me assustei de verdade com
as pernas. MANO UMA PERNA ERA DE BODE E OUTRA DE BRONZE.
-Eu disse, olha ela aí. – A primeira
disse
A segunda começou a me rodear,
sorrindo e falando:
-Está perdidinha, criança?
Gente, eu não queria responder
mas eu precisava mentir né, tipo, ou eu fazia isso ia morrer ali mesmo.
-Não tô não. – Eu estava nervosa,
mas estava séria. – Moro aqui perto.
Uma pena que não tivesse NADA
perto dali e elas obviamente sabiam.
-Perto? Daqui? Tem certeza? –
Elas sorriam e se divertiam com isso.
-Sim, em uma cabana no meio da
floresta.- Isso elas não poderiam contestar.
-Criança, perto daqui só tem o acampamento
dos nojentinhos meio-sangues, como você!
-Como eu o que? – MEIO
SANGUE?????
-Olha ela fingindo que não sabe
do que estamos falando. – A primeira disse.
– Não nos irrite, garota. – A
outra disse em seguida.
-Bom, vocês poderiam me levar até
esse acampamento então.
Eu não sabia o que tava fazendo,
mas queria saber que acampamento era esse ou o que elas estavam falando. Tá, eu
sabia que elas iam falar que eu estava louca e tentariam me matar mas vai
que…
Estranhamente elas ficava com
cara de confusão e disseram:
-Ta bom, vamos.
Eu levantei minha adaga e fui
atrás delas, andamos por horas ao leste até chegar perto de umas ruínas,
parecia que um dia aquilo tinha sido uma vila. Fiquei um tempo olhando pras ruínas
e quando virei novamente as duas tinham sumido.
Eu estava sozinha no meio de um
monte de ruínas e sem saber pra onde ir. Tinha perdido a trilha do norte,
faltava pouco para amanhecer e eu sentei nas ruínas e comecei a chorar. Ouvi um
monte de passos juntos, pareciam correr, quando se aproximaram vi que eram
adolescentes, alguns da minha idade, outros mais velhos. Todos vestiam
camisetas laranjadas e levavam armas nas mãos, quando me viram pareciam ter
visto um fantasma. Contei toda a história para o mais velho dos garotos e ele
me pediu que o acompanhasse. No centro das ruínas tinha um grande arco de
pedra, os demais passaram primeiro e foram sumindo, eu fui por último com o
garoto. Quando passamos pelo arco a vista mudou, continuava sendo uma floresta
ao redor, mas tinha uma casa muito grande 
na primeira vista, de madeira e parecia ser bem antiga, havia um enorme
campo de treinamento e de longe alguns chalés menores, cada um parecia ter uma
cor e modelo diferente, ao longe corria um rio e algumas pessoas vestidas de
laranja já estavam correndo pelo território.
Acompanhei o garoto até a casa
maior, ele me contou que lá eu encontraria o diretor e mesmo que eu não fosse
semideusa eu havia visto através da névoa e isso era perigoso. O diretor era um
sátiro, Theo o seu nome, ele ouviu a minha história, perguntou se já havia
acontecido antes, eu disse que não. Durante a conversa ele me ofereceu um suco,
como estava com sede aceitei, tinha um gosto muito bom -algo parecido com limão
e hortelã-. Ao final da conversa ele apenas disse:
-Se não morreu tomando isso, você
é uma das nossas, esperaremos que seu pai ou mãe lhe reclame.
Passei o dia com um garoto moreno
e baixinho que me explicou tudo sobre o acampamento, disse que enquanto não
fosse reclamada eu poderia ficar em qualquer chalé que o diretor mandasse e que
eu precisaria ter calma para isso acontecer.                       
Passei a tarde aprendendo sobre
espadas e como usar corretamente e conheci a maioria dos espaços, quando ia
caindo a noite começaram a montar a fogueira, de repente vimos uma movimentação
estranha vindo em nossa direção, eram pássaros, muitos deles, quanto mais perto
estavam melhor eu podia ver, eram pombos. Vários deles, brancos como a neve,
começaram a rodear o acampamento e baixar para a fogueira. Antes que eu pudesse
perceber estavam ao meu redor, em círculos até criar um redemoinho ao meu
redor, várias pétalas de rosas apareceram e uma luz rosa bem fraquinha.
Quando os pássaros se dissiparam
eu não parecia diferente, se você desconsiderar o fato de eu estar brilhando e
rosa. Todos olhavam embasbacados, um grupo de garotas muito bonitas estavam me
olhando e de repente correram saltitantes. Todos começaram a se apresentar e
falar que eu teria muito tempo para entender o que era ser filha de Afrodite,
mas elas ensinariam tudo.                       
 No chalé eu ganhei uma cama
de beliche que ficava de frente para o rio, as paredes eram de um rosa clarinho,
rodeada por roseiras e por dentro cheia de espelhos, a cada 5 minutos alguém
parava na frente dos espelhos para se admirar. Eu detestava ficar lá, as
garotas passavam o dia escovando seus cabelos, falando de garotos e planejando
quem seria o próximo a ter o coração partido.
Eu passava todas as horas
possíveis no campo de treinamento ou nas forjas, aprendi muitas coisas com os
filhos de Hefesto e comecei a me dedicar a virar guerreira.
Não preciso falar que os filhos
de Dite me detestavam, né? Faziam a maior cara de nojo quando eu chegava imunda
no final do dia, torciam o nariz toda vez que eu passava por perto. Eu não me
importava com isso, não queria ser como nenhuma delas, não nasci para passar
horas na frente do espelho ou partindo corações, queria ser útil pro mundo,
ajudar as pessoas e ali eu via uma brecha dessa oportunidade.                       
Com o tempo comecei a participar
de pequenas missões, resgatava semideuses ou ia atrás de uns monstros. Por anos
essa foi a minha vida, ser desprezada no chalé e sair para treinar, ir em
missões e voltar para o chalé que eu detestava. As vezes sentia falta do meu
pai, algumas vezes quis voltar atrás mas sempre me senti um pouco traída por
ele, me deixou descobrir algo tão importante sozinha.                       
 O tempo no acampamento
corria diferente, as vezes mais rápido, as vezes mais devagar, acho que
dependia do quão focada em algo eu estava, daí não via o tempo passar. No verão
era maravilhoso, tinham vários campistas novos que vinham treinar e se
impressionavam com as coisas que já tínhamos aprendido. Talvez pelo sangue da
mamãe eu gostava de mostrar do que eu era capaz, mas nunca de forma exibida,
minha intenção era incentivar e não me gabar.
Assim se passou muito tempo, meu
aniversário de dezoito anos se aproximava. Minha vida no acampamento era a
mesma em cada um dos anos, eu amava sair em missões, era quando eu podia me
livrar dos meus meio irmãos detestáveis e fazer algo bom por outras pessoas.
Em breve eu teria que assumir uma
posição maior no acampamento, é o que acontece quando se faz dezoito anos, você
treina e lidera uma equipe, vira professor ou vai se disfarçar pelo mundo para proteger
e resgatar campistas. Eu ainda não sabia o que queria fazer e sequer queria
pensar sobre isso, seria muito melhor que decidissem por mim, mas eu teria que
fazer isso sozinha. Minha mente estava focada nisso quando saí na última missão                        
As vezes éramos chamados para dar
apoio quando buscavam novos campistas, esse grupo vinha de longe e já tinha
sido atacado várias vezes, não sabíamos que filhos estariam lá, mas eram queridos,
pode apostar. Nossa missão era relativamente simples, ir lá e fazer com que
todos chegassem vivos, eram apenas 3 semideuses e mandaram 5 de nós, imaginei
logo que esperavam que monstros piores estivessem a caminho.
O grupo parou em uma pequena
aldeia ao sul e aguardou que os encontrássemos, saímos com urgência no meio da
tarde, claramente chegaríamos durante a noite, batalhas de noite são um saco
então eu torcia para nada acontecer até o amanhecer. Não pudemos usar nada para
não chamar atenção, a caminhada era longa e sabíamos que tinha a probabilidade
de sermos atacados, então fomos com calma e cautelosamente.
Chegamos na aldeia o sol estava
se pondo, era um tempo bom, não queríamos partir durante a noite mas tínhamos
ordens de levar os campistas no mais tardar ao amanhecer. Aquela aldeia me
parecia familiar, principalmente um chalé de madeira com roseiras ao redor, não
tive muito tempo de olhar, fomos até a cabana que estavam para encontrar com os
outros.
Entramos no chalé e vimos os
sátiros responsáveis, 2 garotos altos e malhados e uma menina com uma espada
que parecia maior que eu, escondidos atrás deles tinha uma menina muito pequenina
de cabelos negros e longos, um menino loiro com aparência de quem tinha torrado
no sol e uma garota muito bonita de olhos cinzentos. Quando chegamos eles se
apresentaram, seus nomes eram: Bolinho, Arthur e Lara. Não tivemos tempo para
apresentações, discutimos a melhor forma de adentrar a mata durante a noite e
começamos o caminho de volta.
Estávamos na metade do caminho
quando apareceram problemas. Catorze pessoas caminhando na floresta, cada um
com uma característica que anunciava sua presença a quilômetros, claro que ia
dar problema. Paramos alguns minutos para descansar e tomar água quando elas
apareceram, vieram de todos os cantos, umas quatro delas. Os sátiros não eram
muito bons com armas mas pegaram uma adaga para proteger os desarmados, o resto
de nós se preparou.
Quando se aproximaram eu pude ver
o que eram, verdes e com escamas e no lugar das pernas tinham serpentes. Eu
nunca tinha encontrado com uma delas na vida, lembrava que obviamente eu podia feri-las
com minhas armas, mas não lembrava do que elas seriam capazes
O objetivo delas eram as crianças
e o nosso acabar com elas. Em segundos elas voavam em nossa direção, com lanças
na mão e sangue no olho. Haviam dois de nós para cada uma delas e mesmo assim,
em poucos segundos, parecia que estávamos perdendo. A força que tinham somada a
habilidade com suas armas desestabilizou a todos nós. Atacamos e fomos atacados
por muito tempo até que o primeiro de nós caísse de verdade, o que foi um
problemão                       
Eu já tinha me machucado inteira
quando virei para ter certeza que estavam todos bem, me distraí por um segundo
e fui atingida. Meu ombro pegava fogo e eu não conseguia enxergar nada na minha
frente, fiquei zonza e fraca. Por isso sempre dizemos: não se distraia em
batalha.                       
 Fiquei um tempo caída de
joelhos com a mão pressionando o ferimento, via os outros lutando
desesperadamente para que as dracaenaes não conseguissem o que queriam                       
Esperei estarem distraídas com os
outros para tentar levantar, havia uma lança perto de mim, agarrei e levantei
com dificuldade, tudo girava e eu sabia que com certeza eu erraria e morreria,
mas eu não tinha medo de morrer, não se isso pudesse salvar os outros. Reuni
tudo que tinha dentro de mim e lancei em direção a uma delas, no estante
seguinte uma fumaça de poeira negra explodia no ar.                       
Todas as outras focaram em mim,
eram três delas contra uma eu machucada que não via nada na frente. Ergui minha
espada e as encarei o mais séria que consegui. Não queria morrer parecendo uma
fracote, treinei anos para estar ali e se estava tinha que fazer por onde as
três vinham furiosas, rapidamente, eu calculava desesperadamente um plano útil
quando ZUM                       
Uma flecha prateada cortou o céu
acima da minha cabeça e acertou no meio da testa de uma delas. De repente
várias flechas voaram pelo céu e voltaram a batalhar até que a última dracaenae
explodisse, eu fui ficando cada vez mais fraca até cair e ver um vulto se
aproximar                       
Ela parecia ter a minha idade,
cabelos castanhos, carregava um arco e usava uma capa escura. Desmaiei antes de
entender o que ela falou para mim. Quando acordei ainda estávamos lá, todos
estavam seguros e várias garotas rodeavam o local, começava a amanhecer.                       
Percebi que os outros também
estavam se recuperando e a garota veio falar comigo
 Ela me contou quem era, disse que estavam por
perto e resolveram ajudar, me explicou quem elas eram e o que faziam, me disse
tudo que eu precisava saber antes de perguntar:
-Quer se juntar à caçada?                       
Toda a minha vida passou diante
dos meus olhos, tudo que passei para chegar ali e tudo que eu ainda queria
fazer pelo mundo, essa talvez fosse a oportunidade da minha vida e talvez ali
eu fosse feliz de verdade.                       
-O que preciso fazer? -Perguntei
aflita                        
-É só fazer o juramento. -Disse
em um tom acolhedor. -Mas saiba que não vai ter como voltar atrás.                       
Ao ouvir essas palavras olhei
instintivamente para o caminho que fizemos até chegar ali, lembrei do chalé em
que cresci, das rosas, da carta, dos anos no acampamento e no que eu faria dali
em diante.
– Estou pronta. – Disse enquanto
me ajoelhava na frente da deusa
Então, juntas dissemos:
Eu me comprometo com a deusa
Ártemis, dou as costas para a companhia dos homens, aceito a virgindade eterna
e me junto à caçada
.
 Fisicamente nada em mim mudou, mas eu sentia
dentro de mim que tinha mudado, eu nunca mais fui a mesma pessoa desde aquele
momento.
A deusa concordou em levarmos os
campistas e buscarmos alguns pertences no acampamento, aproveitei para informar
o diretor que estava partindo e me despedir de onde vivi os últimos anos.

Não foi fácil, mas nunca olhei
para trás, passamos meses caçando no deserto antes de eu estar pronta. Precisei
aprender muito, mas foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, nada supera
o que as caçadoras me proporcionaram. Fiz de vocês o meu lar e estou disposta a
ser o lar de vocês, nunca se esqueçam disso.                        
~Cami
~Beijos de Luz da Aurora
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