Conto – Velhos Amigos

    Como tenente eu tenho algumas obrigações e uma delas é ajudar no recrutamento. Geralmente temos um treino por semana na biblioteca Nacional e se isso já chama bastante atenção dos mortais que passam por lá imagina das semideusas que procuram ajuda. Alguma delas acabam se juntando á nós e isso facilita horrores o trabalho de recrutamento, mas nem sempre essa tática dá certo. Ás vezes alguns monstros não muito espertos aparecem, mas nada que não possamos lidar, porém outras vezes essa tática não dá muitos resultados então saio procurando por ai meninas com potencial.

    A menina da vez se chamava Ângela. Ela parecia uma menina legal. Era morena com olhos castanhos e se camuflaria perfeitamente com os mortais se ela não tivesse expulsado 2 cães infernais do jardim de sua casa usando uma pá de jardinagem e uma cara de má que faria até Hades procurar o seu elmo na cabeça dela.

    Eu a encontrei em uma ronda pelo Cruzeiro Velho enquanto observava as praças por algum movimento suspeito e presenciei a cena em uma das casas. Admito, fiquei com dó dos cachorros, que saíram correndo da casa com os rabos entre as pernas. Quando cheguei mais perto vi a menina gritando “ E não voltem mais!”.

    “Essa ai tem garra” pensei já mandando uma mensagem de Íris para Ártemis. Ela precisava conhecer a Ângela. Como eu sei o nome dela? Digamos que eu já a desconfiava da existência de alguns semideuses nessa área.

– Minha senhora? Está aí?- Perguntei enquanto a imagem ia ficando nítida.

– Claro jovem, pode falar.- Ela estava de costas para a mensagem mirando com a Selene ( seu arco).

– Encontrei uma menina com muito potencial para a Caçada, acho que a senhora vai gostar de conhecê-la.

-Uhm…Tudo bem. Te encontro aí em 5 minutos, só preciso terminar de ministrar essa aula.- Ela solta a corda.- E é assim meninas que se acerta na pupila do adversário a 90 metros de distancia. Agora quero todas de olhos vendados, vão treinando até eu voltar.- Então eu desliguei a mensagem de Íris.

    Vocês devem estar se perguntando “Como uma deusa tão poderosa com Ártemis consegue sair por aí sem chamar atenção dos monstros ou criaturas?”. A resposta é simples. Os deuses podem parecer como mortais quando querem e Ártemis sendo a deusa da caça é mestre em camuflagem. Ela usa o ambiente para mascarar a sua divindade assim como usamos as folhas para nos esconder na vegetação, logo ela fica parecendo uma semideusa comum ou até mesmo um “Legado” como são conhecidos na Nova Roma os filhos de semideuses chamando muito menos a atenção do que em sua forma divina habitual.

    Assim como o prometido ela chegou em exatos 5 minutos. A deusa estava na forma de uma menina de cabelos e olhos castanhos, um pouco mais velha que eu, e usava um vestido com mangas azul marinho ( um pouco roxo, depende da luz), uma calça branca e botas marrom. Era época de frio em Brasília, uma das poucas na verdade. Percebi que ela vestia um vestido no mesmo modelo do meu, só que o meu era bege. Ri assim que a vi e ela retribuiu com uma gargalhada.

– Juro que não vi sua roupa antes de escolher essa. – Ela riu enquanto andávamos.

    A levei até a casa da garota e ficamos a observando ao longe. A garota realmente tinha potencial, mas morava com mais 2 irmãos mais velhos e seu pai. O irmão do meio era claramente um idiota que ficava pisando em suas flores, o mais velho era um machista que vivia a mandando ir para a cozinha e o pai era um banana que via todo o bullying acontecendo e fazia nada. Nós ficamos terrivelmente angustiadas com as cenas, mas eu fui impedida de fazer algo. A deusa disse para esperarmos o momento certo.

    O momento  chegou perto do por do sol. Os dois irmãos haviam saído e o pai se trancou em seu escritório. Tocamos a campainha e ela atendeu. A garota parecia muito cansada e estava toda suja de terra. Foi meio difícil introduzir o assunto com ela, mas a deusa tinha muito mais experiência e foi até interessante a ver trabalhando. Os olhos da garota brilhavam enquanto ela ouvia a deusa falar. Aquele ataque não havia sido o primeiro, mas ela fazia sempre o máximo para proteger sua família e ela mesma. Quando a mostramos o panfleto e a deusa revelou a sua identidade a garota praticamente fez as malas.

    O pai sabia que esse momento iria chegar e se despediu dela com um pouco de aperto no coração, mas sabia que ela estaria segura. Ângela nem fez questão de se despedir dos irmãos e nem nós fazíamos. Saímos e já estava no inicio da noite. Era noite de lua crescente e ela estava maravilhosamente linda. Estava perdida em minhas reflexões sobre a lua quando Ártemis nos mandou parar.

    A deusa sentiu uma presença estranha e me ordenou que levasse a nova Arktoi para um lugar seguro. A obedeci, mas quando nos viramos para sair vi uma flecha prateada atravessar o peito de Ângela e ela caiu nos meus braços.

    – O QUE?!- Gritei pelo instinto enquanto tentava cura-la com todas as minhas forças mas o tiro havia sido tão certeiro que nem mesmo a minha magia conseguiu a trazer de volta. Foi morte instantânea…

    Olhei para a deusa com preocupação, mas ela só conseguia olhar na direção de onde a flecha havia vindo. “Deméter, acredito que essa seja uma de suas filhas, sinto muito…” pensei enquanto fechava os olhos de Ângela que quando a encostei no chão se tornou uma linda roseira.

    Ártemis não precisou se virar para eu entender que precisaria me preparar para enfrentar algum oponente muito forte e também não precisei vê-la para saber que ela estava em fúria. Ela ainda de costas deu o sinal para eu a segui-la. Equipamos os arcos e seguimos na direção da flecha que havia sido disparada do parque da cidade.

“Lady Ártemis de roxo e Aurora de bege”

    Por um instante passou pela minha cabeça que a flecha havia sido disparada por alguma das nossas meninas já que a flecha era de prata e veio do parque, onde tem uma das entradas do acampamento, mas estava claro que alguém estava querendo nos incriminar. Uma caçadora NUNCA trairia Ártemis, seja arktoi ou caçadora formada eu mesma confio a minha vida e essas meninas.

    Fomos correndo ao parque e nos deparamos com um rastro estranho, era diferente, quase divino. O seguimos até a parte das churrasqueiras rodeadas de arvores altas como pinheiros. Já era noite e o parque estava quase sem energia nessa área (para variar).  Vimos um vulto se movimentar 30 metros a nossa frente e tencionamos o arco. Eu o tinha na minha mira e estava pronta, apenas esperando o comando quando a deusa abaixou o arco.

– Não pode ser… – Disse ela enquanto abaixava a Selene e o vulto negro ia em direção a luz mais próxima.

    Obviamente eu não abaixei o arco, mas acredito que fiz certo. O ser na luz se revelou um homem bem alto, forte, com roupas gregas de caçador e uma tatuagem de escorpião em seu braço que ainda puxava a corda do arco.

-Órion… Por que? Por que fazer isso com uma menina tão inocente? Achei que fosse um amigo.

    Ele não respondeu, apenas continuou apontando a flecha para nós. Seus olhos estavam dourados e vazios, seus braços e pernas tremiam, ele não parecia estar no controle de seu corpo. Só consegui pensar em uma coisa “Órion estava sem controle. O único motivo de seu estranho comportamento só podia ser algum tipo de controle mental, provavelmente possessão por um Eidolon, mas eles conseguiam possuir gigantes?”.

    Olhei para Ártemis e ela estava sem reação. Órion estava apontando sua flecha bem para a cabeça da minha senhora e eu fiz o que toda caçadora deve fazer.

    A ameaça angustiante não durou muito. Percebi nos olhos de Órion que ele não queria fazer aquilo, mas também vi que ele estava perdendo a sua batalha interna e de repente ele soltou a flecha. Eu não pensei, soltei a corda da Fauna e puxei a deusa rapidamente, mas a flecha de Órion era tão precisa que conseguiu mesmo assim pegar no braço de Ártemis de raspão liberando um brilho de seu arranhão. Enquanto isso a minha flecha acertou bem perto de sua cabeça, mas ele sequer se moveu.

    Ela caiu no chão junto comigo e voltou a si. Antes que eu pudesse falar “cuidado”  ela já havia se levantado e preparado a próxima flecha.

-Você não quer fazer isso Órion, sei que não quer, assim como eu não quero te atacar.- Os dois se encaravam apontando suas armas uns para os outros.

-Eu… Eu não… – Ele parecia relutante, mas mesmo assim já reequipou a próxima flecha e já estava pronto para atacar.

    Claro, eu fiz o mesmo. Não ia deixar de aproveitar a vantagem do 2 contra 1. Depois eu vi que eu estava era sobrando nessa história.

-Órion, você se lembra daquela vez que saímos para caçar um javali e você acabou ficando preso em uma das armadilhas que eu tinha colocado lá há anos atrás?

    Acho que ela estava tentando recuperar ele através do convencimento. É uma boa tática…

– Você tinha dito que era para coelhos e que só pessoas de baixa inteligência caiam nela. – Ele deu um sorriso, mas manteve a posição só que dessa vez tremendo ainda mais.

– Isso, e você caiu feito um patinho, ou melhor, um coelhinho.

– A culpa não é minha que você esconde armadilhas muito bem, é a melhor caçadora que existe.- Ele vai abaixando o arco aos poucos, ainda relutante.

    “Estou de vela? Bom, meu cabelo já é vermelho e eu brilho, acho que SOU uma vela”- Pensei sem saber como reagir a isso, mas sempre mantendo a minha posição.

– Eu te treinei para ver essas coisas, você quem não viu. Aposto que caiu na armadilha de propósito só para dar uma de “Donzela em perigo”.

– Aposto que se eu fosse uma Donzela seria eu ai ao seu lado.

    “O que ?! Ele tá jogando essa para mim?!” –pensei olhando para os dois esperando a próxima reação.

    Ártemis voltou a ficar séria.

– Talvez.- Disse agora em um tom mais seco e o encarando agora com aquela raiva misturada com angustia.

    O Gigante abaixou o arco por completo e caiu de joelhos. Senti uma aura muito forte saindo dele e passando por mim incrivelmente rápido, como se não quisesse ser reconhecido, mas pelo olhar que ela me deu, já sabia quem o havia enviado.

    Ela abaixou o arco e eu a acompanhei. Ela foi até ele e ficou ao seu lado, mas sem olhar em sua direção.

– Tivemos ótimos momentos, mas não volte aqui. Não quero te ver mais nessa cidade, entendido?

– Sim senhora…- Ele disse baixinho. Ele olhava para mim com tristeza. Aposto que ele realmente adoraria estar no meu lugar e ficar ao lado dela, mas ele sabe que não pode.

    Ártemis saiu andando na frente sem olhar para trás. Eu a segui e percebi que Órion estava me fitando com os olhos. Senti um calafrio surgindo da nuca e acelerei o passo para alcançar a deusa. Também não olhei para trás, mas foi mais porque não queria voltar a ver os olhos tristes do gigante, mas não fui mais para frente porque não queria ver os olhos tristes de Ártemis.

    Chegando ao acampamento  eu a parei na entrada e pedi para se virar para mim.

– Você sabe quem enviou a criatura, não sabe?- Perguntei desejando estar errada.

– Sei… O seu pai.

FIM

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~Beijos de Luz da Aurora

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